“Profissão Repórter” 18/11/2014 a vida de transexuais

No “Profissão Repórter” dessa semana você conheceu histórias de pessoas que querem mudar de sexo. Confira abaixo um pouco da história de cada uma dessas pessoas.

Jay Baker

No estado do Maine, nos EUA, conhecemos a família do menino Jay, de quatro anos. Foram meses de conversas por email e telefone até a entrevista. Jay nasceu Jamima e desde os dois anos começou a dizer aos pais “eu sou um menino”. A mãe do menino, Clara, conversou com ele sobre o assunto da entrevista. Ele disse que não queria conversar sobre isso. Para o garoto, este é um tema difícil.

Christopher Baker, pai do garoto, nos mostra fotos de Jay aos dois anos, vestido de pirata e com roupas de menina. Depois conta que a mudança foi muito mais fácil para seus outros três filhos do que para eles.

“Antes que pudesse formular frases completas, ele já dizia ‘eu menino’. Nós ríamos e ficávamos surpresos, só que isso mudou quando Jay não parou de chorar por três dias seguidos. Ele chorava porque queria ter um pênis e porque queria ser visto como um menino e mesmo assim eu resistia”, conta Clara Baker.

A mãe de Jay conta que queria profundamente que ele fosse uma menina e que precisou se esforçar para entender o que estava acontecendo. “Vimos como ele se transformou em uma criança muito mais feliz e isso é o que importa”, diz.

Luciano Palhano

luciano

Luciano Palhano é coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade. Ele nos leva a uma reunião no CRT/DST-AIDS, que tem o maior serviço de atendimento ambulatorial para transexuais no Brasil. As rodas de conversa são muito importantes para começar a entender o vocabulário que ainda é pouco conhecido para boa parte da sociedade, como os termos cisgênero e transgênero.

Cisgênero e quando a pessoa nasce homem ou mulher e assim se identifica. Transgênero é quando a pessoa nasce homem ou mulher, mas se identifica com o sexo oposto.

“O CRT, em 2009, nós tínhamos uma demanda de 400 ou 500 pessoas na fila. Hoje nós temos uma demanda de mais de 3.200 pessoas”, explica Maria Lúcia Macedo, psicóloga. Em média, a espera da cirurgia de redesignação sexual pelo SUS é de 10 anos. Por ano, são realizadas em São Paulo apenas 12 cirurgias. A maioria acaba fazendo a transição de maneira clandestina.

“Todo o meu tratamento foi clandestino. Desde a hormonioterapia, a cirurgia, nunca tive laudo. Isso acabada colocando gravemente a nossa vida em risco”, diz Luciano Palhano. Ansioso para se livrar da faixa que escondia os seios dia e noite, Luciano pagou R$ 6 mil por uma cirurgia. “Eu não podia ficar internado no hospital, porque era uma cirurgia não legalizada. Aconteceu do mamilo necrosar”.

Laerte

laerte

Caco Barcellos conheceu a cartunista Laerte há 30 anos. No reencontro, o jornalista pergunta como deve chamá-la. “Como você se sentir mais a vontade. Não estou corrigindo as pessoas, o que sair, saiu. Não é gafe, não é problema nenhum”, diz Laerte. Caco Barcellos a acompanha em um debate sobre sua luta contra a homofobia, preconceito contra gays, travestis e transexuais.

Laerte conta que na infância gostava de ser menino. Ela esperou 30 anos e três casamentos para se revelar uma transgênero. “Eu não aceitava, porque eu sabia qual era a verdade, que não era uma etapa”.

A cartunista perdeu um dos três filhos em um acidente de carro. A partir desse momento, a mudança começou. A transformação foi registrada em seus trabalhos.

Christian Hugo

christian

Acompanhamos o jovem Christian Hugo da Silva em suas consultas no CRT/DST-AIDS. O jovem busca o tratamento de masculinização e, futuramente, a cirurgia de redesignação sexual. Um laudo é feito por profissionais da saúde e serve para confirmar a transexualidade de uma pessoa. Além de modificar o nome nos documentos, o laudo permite que Christian entre na fila para a cirurgia de retirada dos seios. O tratamento com hormônio masculino também precisa de acompanhamento médico.

Eduarda e Robis

Duda tem 18 anos e começou sua transformação aos 14. Robis tem 20 e começou mais cedo, aos 11. O casal se conheceu na internet. “O grupo tem trans homem e trans mulher, aí eles postam o resultado dos hormônios, comparando antes e depois, o que toma, essas coisas. Daí postei uma foto lá, veio ele. A gente começou a se falar, foi criando um afeto, sabe?”, conta Eduarda Vieira, maquiadora. “Ela nunca tinha namorado ou ficado com homem trans e eu nunca tinha ficado com uma mulher trans. Foi novo para ela e para mim também”, diz Robis de Oliveira Ramires, estudante.

Para a mãe do Robis ainda é difícil lidar com a transexualidade do filho. “Se alguma mãe falar ‘é fácil, me acostumei’, me ensina a receita. Porque eu, com dez anos, não me acostumei. Não chamo de ele, não”, diz Eliane Oliveira, mãe do adolescente.

Gisele, irmã de Robis, ajudou bastante no processo de transformação, mas de vez em quando chama o irmão de “ela”. A mãe deles diz que a fácil aceitação da menina, na época com cinco anos, facilitou sua compreensão do que acontecia. “Não tinha dois anos e já não aceitava que colocasse saia, não aceitava o rosa, não queria boneca, era sempre carrinho, brincava no condomínio só com os meninos”, conta Eliane.

Avery Jackson

avery

No Kansas, nos Estados Unidos, conhecemos Avery, de sete anos. A mãe da menina conta que, aos cinco anos, ela começou a usar vestidos de princesa e não tirava nem para dormir. “Me forçavam a usar uma fantasia de Homem-Aranha, mas eu queria uma de menina, porque gosto de ser menina”, diz Avery. Quando perguntamos sobre a transição, a menina conta que foi difícil. “Foi difícil dizer para a minha família que eu era uma menina. Achei que eles fossem me abandonar. Agora que sei que eles me aceitam, posso ser quem eu sou”.

Para a família, não há dúvidas de que este é o caminho certo. “O melhor que podemos fazer é amá-la incondicionalmente. Se outros pais na mesma situação virem o amor que damos aos nossos filhos, poderemos ajudar a abrir seus olhos e seus corações”, acredita Tom Jackson, pai de Avery.

Quando Avery passou a ser tratada como menina, a família perdeu muitos amigos. “Os pais das crianças ficaram assustados, porque não sabiam como explicar para os filhos o que estava acontecendo e pararam de falar com a gente”, conta Debora Jackson. A família resolveu tirar os filhos da escola e hoje os dois são educados em casa. “Algumas pessoas dizem que deus cometeu um erro. Eu não acredito nisso. Ninguém é perfeito e por isso ninguém pode apontar o dedo para minha filha e dizer que ela é um monstro. Posso ver que a minha filha está feliz, que ela não deseja mais morrer, como muitas vezes desejou. Então, como mãe, sei que estamos fazendo a coisa certa”, diz a mãe da menina.

Divulgação: Globo