“Profissão Repórter” 02/12/14 casos de HIV tem aumento no Brasil

O Profissão Repórter mostra como Brasil e Moçambique tratam o HIV. Nos dois países houve crescimento no número de infectados pelo vírus da AIDS nos últimos anos, mas a diferença entre o tratamento médico nos dois países impressiona.

Moçambique – Maputo

Em Moçambique, a AIDS é a principal causa de morte entre adultos. Os homens do país têm muitas mulheres e fazem sexo com todas sem o uso de preservativo, o que facilita a contaminação. Rituais religiosos em que cortes são feitos na pele das pessoas também espalham a doença.

Fomos para Maputo, a capital do país, para entender como o HIV é tratado. Em 2013, a AIDS matou 82 mil pessoas em Moçambique. A estrutura hospitalar do país é precária e os atendimentos de tuberculose e HIV são feitos no mesmo ambiente. Como os portadores do vírus têm a saúde mais frágil, a chance de contaminação com a tuberculose é grande.
Hoje Moçambique tem 1,6 milhões de pessoas contaminadas com o vírus e o número não para de crescer. A organização humanitária Médico Sem Fronteiras tenta há 10 anos conter o avanço da doença. A falta de informação e questões culturais dificultam a busca pelo tratamento já que muitas pessoas contaminadas com o HIV procuram curandeiros em vez de hospitais.
Diferente do que acontece no Brasil, em Moçambique as mulheres estão em maior número entre os infectados. No ano passado, 820 mil moçambicanas estavam tratando o HIV. O número de homens contaminados estava em torno de 500 mil.
Cerca de 41% dos infectados de Moçambique não têm acesso ao medicamento antirretroviral. Isso acontece porque o país não produz os medicamentos anti-AIDS e tudo o que é distribuído aos pacientes vem de doações internacionais. O governo de Moçambique, com apoio do Brasil, está criando a primeira fábrica de medicamentos da África. O projeto foi elaborado e colocado em prática pela Fiocruz, ligada ao Ministério da Saúde. A fábrica tem capacidade de produzir medicamentos para todos os soropositivos do país e a previsão é de que a distribuição comece em sete meses.
Margarida é uma moçambicana que participa das reuniões dos Médicos Sem Fronteiras e faz o tratamento. Há alguns anos, após a morte do marido, ela se recusou a transar com o cunhado em um ritual de purificação e perdeu a casa onde morava. Hoje ela e os filhos vivem em uma casa emprestada e precisam de ajuda para comer. O filho mais velho de Margarida, de oito anos, tem o vírus HIV, mas não sabe.
Lourenço tem 18 anos e descobriu que tem o HIV há um mês. O jovem diz que é virgem e a contaminação deve ter acontecido em um dos rituais da família. “Com relações sexuais, não, porque ainda não comecei. Talvez por outros meios, sangue, lâminas”, conta.
Outra jovem de Maputo tentou se matar, aos 17 anos, quando descobriu que tinha o vírus. “Graças a deus meus pais conseguiram evitar. Quando senti que estava respirando normalmente, aí eu vi que valia a pena viver”.

Brasil – Belo Horizonte e São Paulo

No Brasil, acompanhamos o parto de uma mulher contaminada com o HIV. A grávida deve tomar o coquetel anti-AIDS corretamente para proteger a saúde do feto. Sueli Alves, de 34 anos, tem o vírus há seis anos e teme pela saúde da filha. A cesariana é recomendada nesses casos, por reduzir o risco de contaminação da criança a 1%, mas como chegou ao hospital com dilatação avançada, a menina nasce de parto normal.
Sueli não contou ao pai das filhas que tem HIV, porque tem medo dele. Ela conta que o rapaz é violento e já bateu nela muitas vezes, inclusive durante a gravidez das meninas. A criança nasceu bem e tomará o coquetel anti-Aids durante um ano e meio. Só então um exame será feito para saber se ela tem ou não o HIV. O pai foi avisado pelo hospital sobre a contaminação da parceira e o exame dele deu negativo.
Nos últimos oito anos, houve um aumento de 11% no número de infectados pelo HIV no Brasil. Os jovens foram os mais atingidos. “O jovem de hoje não viu a epidemia de 30 anos atrás. O jovem não viu ídolos morrerem, não viu Cazuza, não viu Freddie Mercury, então ficou distante. Os jovens de hoje não têm correlação com essa história. Tem, sim, jovens vivendo, adultos vivendo com HIV e a gente tem que se prevenir. Tem vários métodos aí”, afirma Gergina Orillard, diretora executiva da UNAIDS/Brasil.
Depois de horas procurando algum paciente para a entrevista, um jovem que faz tratamento no Instituto Emílio Ribas aceitou conversar com a nossa equipe. Ao ser questionado sobre a discriminação, o rapaz diz que a maior de todas é da família. “Nem minha família, que mora onde eu moro, eles não sabem”, revela. Depois disso, combinamos de encontrar com o jovem em um parque para acompanhar a conversa com a família, mas ele não apareceu nem atendeu nossas ligações.
A farmácia do hospital Emílio Ribas é a maior distribuidora de anti-AIDS do país. Mensalmente são entregues 70 mil medicamentos para seis mil pacientes. “O medicamento é fornecido pelo governo federal e o estado distribui. Ele é gratuito e a assistência farmacêutica é universal, quer dizer, todo mundo que passa no serviço pode retirar o medicamento, independente de fazer tratamento aqui ou não”, explica Georgênio Costa, enfermeiro.
O paulista Antonio Gregório tem 19 anos e descobriu que é HIV positivo há seis meses e vai começar a tomar os antirretrovirais no início de 2015. Valéria Nunes, mãe do adolescente, descobriu que ele tem o vírus ao encontrar o exame em uma gaveta do guarda-roupa. “Como se o chão abrisse debaixo dos pés da gente. A gente fica sem chão”, revela.
“Sempre falo para a pessoa que estou saindo, que eu entendo se a pessoa não se sentir segura quanto a isso, numa boa, mas continuo a mesma coisa”, diz Antonio Gregório.

Foto: Reprodução/RedeGlobo

Foto: Reprodução/RedeGlobo

Em Moçambique, ao contrário do Brasil, são as mulheres as mais atingidas pelo HIV. A repórter Valéria Almeida percorreu a capital Maputo e descobriu que lá é comum um homem ter até sete mulheres.

Margarida foi vítima de outra tradição que ajuda a espalhar o vírus: a Kutchinga. A crença é que o homem morre porque a mulher é amaldiçoada. Para se purificar, a viúva deve ter relações sexuais com um parente do marido morto. No ritual é uso de preservativo é proibido. Como se recusou a cumprir a tradição, Margarida perdeu a terra e a casa em que vivia. “Eu preferi perder tudo do que perder a minha vida e a vida do meu filho”.

Divulgação: Rede Globo