Por dentro dos gastos da Copa do Mundo Brasil 2014

Não basta convocar, treinar, jogar e vencer. A Fifa precisa aprovar. Quase tudo. O controle da entidade sobre o evento que paga 89% de suas despesas quadrienais é restrito e aumenta nos sete meses que antecedem o megaevento. A partir do sorteio dos grupos, que, no caso do Brasil, aconteceu na Costa do Sauípe (BA), no dia 6 de dezembro do ano passado, reuniões, formulários, cartas-circulares e discussões são uma constante na rotina dos administradores e técnicos das 32 seleções.
— Será minha quarta Copa desde 2002, e já participei de mais de 200 reuniões com a Fifa. O controle é sempre rígido, nos mínimos detalhes — diz o mineiro Guilherme Ribeiro, o administrador da seleção brasileira, responsável por toda a logística da equipe.
Em Florianópolis, escolhida para sediar o Seminário das Equipes que termina hoje, no Hotel Costão do Santinho, os técnicos ganham os holofotes e promovem o evento, mas a presença de administradores, como Ribeiro, é crucial. São eles o elo entre a Fifa e as seleções.
Na reunião de ontem, Ribeiro foi uma das vozes que levantaram a preocupação com a nova exigência da Fifa para que os jogadores não passem pela zona mista de entrevistas, após as partidas, com fones nos ouvidos. A tática é corriqueira entre os atletas não querem falar com a imprensa.
Como anfitriã, o Brasil terá vida menos difícil. No dia em que cada uma das 31 equipes estrangeiras desembarcar, terá de passar por um encontro de mais de seis horas com o coordenador-geral de cada cidade-sede para inspeção de uniformes, equipamentos, material de publicidade etc. Em boa parte desse encontro a presença dos 23 jogadores de cada seleção é obrigatória, motivo de reclamação dos atletas.
— Até luvas de goleiros têm de ser apresentadas. Tem de assinar a aceitação das cores e, se houver problema com logomarca e não der tempo de trocar, o goleiro precisará pôr esparadrapo em cima — conta Ribeiro.
As atividades de mídia também são controladas. Os treinos terão de ser abertos aos jornalistas, no mínimo, por 15 minutos. Há exceção para um secreto, que, jamais poderá ser o da véspera de jogo. Também foi recomendada pela Fifa, pelo menos, uma atividade diária de mídia para cada seleção.
Na véspera dos jogos, o treino oficial no estádio da partida terá duração máxima de 60 minutos, fechado para o público e aberto para a imprensa credenciada, no mínimo, por 15 minutos. Técnico e um jogador-chave são obrigados a dar uma coletiva no local.
Controle antidoping é outra preocupação. Exames antes da competição serão feitos nos 23 jogadores de cada seleção, com aviso prévio de algumas horas. Serão coletadas 736 amostras de sangue e outras 736 de urina. A partir de 1º de março, podem acontecer testes-surpresa nos clubes de possíveis convocados. Durante a Copa, haverá mais 256 exames de sangue e 256 de urina.
Quinhentas emissoras
Até a chegada ao estádio terá regras rígidas. Cada seleção não poderá chegar depois de faltarem 90 minutos para o início do jogo. Faltando 85 minutos, a escalação será entregue ao quarto árbitro. De 50 a 20 minutos antes do jogo, começa o aquecimento. E de oito a sete, a entrada em campo. Tudo cronometrado. Se não for cumprido, a punição vai de advertência à multa.
Cada seleção receberá 25 bolas para treinos e aquecimento antes dos jogos. Após as semifinais, os dois finalistas receberão a bola da decisão. Esta bola terá outra cor.
Antes de estrear no Mundial, cada seleção está obrigada a fazer um treino aberto na cidade que servir como seu QG. Pode ser no CT ou em estádio a ser aprovado pela Fifa. Ingressos gratuitos serão distribuídos. Regras de marketing se aplicam. A partir de cinco dias antes da abertura do Mundial, as seleções não mais poderão usar placas de publicidade de seus patrocinadores em volta dos campos de treino; só as da Fifa. Até 15 de março, cada seleção terá de informar data, horário e local desse treino aberto.
As credenciais também são controladas. A Fifa dará 55 por seleção (23 jogadores e 32 oficiais), mas cobrirá despesas de 50 apenas. Todos os deslocamentos serão pagos pela organização. Cada seleção terá 50 lugares garantidos em voos charters com o mínimo de cem lugares. Se quiserem mais lugares, as seleções terão de pagar, como fará a Itália.
— Levaremos as famílias dos jogadores — explica Stefano Balducci, o homem de logística da seleção italiana.
Cada seleção terá que informar à Fifa uma lista de 30 jogadores pré-inscritos até 13 de maio, e a lista final de 23 até 2 de junho. Substituições na relação dos 23 só serão permitidas por problema médico grave até 24 horas da estreia, mas não precisa conter jogador da pré-lista dos 30.
Cada um dos 12 estádios terá 34 câmeras para a transmissão dos jogos. É o maior número em todas as Copas — duas a mais que na África do Sul-2010 e oito que na Alemanha-2006. Além da câmera-robô, sustentada por cabos no alto dos estádios, que estreou em 2010, haverá câmera num helicóptero.
— Na final, serão dois helicópteros, o que aumenta o total de câmeras para 35 — conta Sven Schaeffner, chefe da TV Fifa.
São 500 as TVs e rádios detentoras de direitos de transmissão, com 10 mil profissionais credenciados. Mais de 200 países assistirão às partidas. A Fifa TV terá 32 equipes de até três pessoas seguindo cada seleção. Essas imagens serão distribuído aos detentores de direitos. Viajarão nos voos das equipes.
Plataforma digital é outra prioridade. A versão 2 do APP da Fifa será lançada em maio, em seis idiomas: inglês, francês, espanhol, alemão, português e árabe. Para as seleções, a Fifa distribuirá US$ 358 milhões em prêmios. Os valores variam pelo número mínimo de jogos (de três ao máximo de sete), e bônus pelo título. Só para preparação, a entidade dará 50% a mais a cada equipe: US$ 1,5 milhão, contra US$ 1 milhão de 2010.