Mineirão foi palco do maior vexame em Copa da Seleção Brasileira

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O som da História  aconteceu na nossa frente pode ser ensurdecedor. Foi assim em Belo Horizonte, esta noite, com a Alemanha se tornou o primeiro finalista do Mundial 2014, e deixou o Brasil em estado de choque e destroçou a família Scolari com um marcador, de 7-1, sem precedentes em semi-finais de Copa do Mundo.

Com uma eficácia acompanhada de requintes de brilho e crueldade, a equipe de Joachim Löw aproveitou, como ainda não tinha feito neste Mundial – nem sequer com Portugal… – as avenidas de espaço oferecidas pelo Brasil. Empolgada pela grandeza do momento, a seleção brasileira caiu no erro de acreditar que tinha argumentos para jogar olhos nos olhos com a equipe mais rotinada deste Mundial e pagou com um preço nunca visto nos 84 anos desta competição.

Cheguem para lá, Maracanazo, Sarriá e Guadalajara 86. Arranjem lugar para mais um: a derrocada do Mineirão trouxe um novo capítulo, o mais brutal de todos, à galeria de tragédias brasileiras em Mundiais. Uma desastre talvez iniciado nas ausências forçadas de Neymar e Thiago Silva, que deixaram ainda mais à vista as limitações de ideias e conceitos do grupo às ordens de Scolari. Mas que está muito longe de esgotar: as baixas não explicam todo o abismo que separou o Brasil do seu adversário, do primeiro ao último minuto.

O clima festivo, acentuado pela carga mística das máscaras de Neymar, distribuídas pelas bancadas, pareceu ter sido captado por Scolari na escolha do onze: depois de testar uma versão mais defensiva nos dias anteriores, com três médios de contenção, o técnico  optou por fazer trocas diretas (Bernardp por Neymar e Dante por Thiago Silva) e enfrentar os alemães de peito aberto, 4x2x3x1 contra 4x2x3x1.

Os primeiros cinco minutos da partida pareceram dar-lhe razão, com um clima de empolgamento que se acentuou da primeira vez que uma longa diagonal de David Luiz encontrou Hulk nas costas de Lahm. O cruzamento do Incrível encontrou outro incrível, Neuer, no caminho e as hipóteses do Brasil na primeira parte acabaram aí, aos 7 minutos.

Apenas quatro minutos depois, na sequência do primeiro gol da Alemanha, David Luiz deixou fugir Müller nas suas costas e ficou preso no trânsito da pequena área quando quis compensar o erro. Estavam decorridos 11 minutos, e o 0-1 começava a gelar o estádio. Mas gelava ainda mais a equipe brasileira paralisada pelo medo e pelas linhas rígidas que as movimentações inteligentes de Özil, Kroos e Khedira destroçavam em ritmo de marcha marcial.

Quando, após uma combinação maravilhosa entre Kroos e Müller, Klose teve duas tentativas para bater Júlio César e, com ele, bater igualmente o recorde de golos de Ronaldo em fases finais (16 em quatro Mundiais), o punhal que começava a espetar-se nas entranhas do Brasil foi mais fundo, deu início ao mais colossal harakiri coletivo de que há memória: entre os 24 e os 29 minutos, a Alemanha banqueteou-se num festim de espaço e bolas perdidas, repartindo mais três golos por Kroos e Khedira e consumando a meia hora mais goleadora em 84 anos de Mundiais.

Só aos 5-0, e já com lágrimas à solta nas bancadas do Mineirão, a armada de Löw abrandou. Os últimos 15 minutos da primeira parte trouxeram, então o espetáculo penoso de Scolari a tentar introduzir alguma ordem numa equipa que já só queria sair dali rapidamente. O público, esse, dividia-se entre tímidos cânticos de incitamento e não tão tímidos coros de insultas a Dilma e a Fred, os dois vilões escolhidos para os maus momentos.

A segunda parte era uma simples formalidade, que Scolari, refém do erro inicial, tentou compor, trocando Hulk e o desastrado Fernandinho, por Ramires e Paulinho. A única coisa a fazer era pôr o contador a zero e encarar a segunda parte como um jogo dentro do jogo, e honra lhe seja feita o Brasil tentou fazê-lo: Oscar, Paulinho e Fred testaram por diversas vezes as qualidades sobre-humanas de Neuer. Foi demasiado: com tudo a correr mal, o Brasil ainda teve pela frente um guarda-redes implacável, a retirar-lhe as últimas esperanças de uma saída de cena digna.

Quando o fôlego canarinho amainou, a Alemanha redescobriu-se com latifúndios de espaço para explorar, e a troca de Klose por Schürrle encarregou de garantir que o suplicio não acabava ali. Frente a uma equipa esfrangalhada, sem sombra de ordem e critério, os contra-ataques alemães foram a gota de água que fez transbordar o copo da História com mais dois golos, precisamente do avançado do Chelsea.

Ao cair do pano, Oscar fixou o 7-1 final, num golo pontuado por aplausos irônicos do público, que já só queria encontrar culpados pelo desaire, de Dilma a Fred, de Ronaldo a Scolari. Foi uma nota final de azedume, numa goleada que promete ter repercussões políticas e sociais no país e que corta pela raíz o clima de festa canarinha que se projetava para os últimos dias. Indiferentes ao drama, ilustrado pelas lágrimas e pedidos de desculpa de David Luiz, os adeptos alemães continuavam a festejar nas bancadas, agradecendo o recital da sua equipa durante mais de uma hora com coros de Riô de Janerro, oh-oh-oh-oh.