“Globo Repórter” (14/11/14): Os desafios de quem planeja o futuro

"Globo Repórter" vai ao ar todas as sextas na Globo

“Globo Repórter” vai ao ar todas as sextas na Globo

O “Globo Repórter” desta sexta (14), irá mostrar se vale a pena planejar o futuro. E irá apresentar um paulistano que tirou o assunto de letra e irá mostrar o segredo dele.

Família de menino, que sonhava em ser bailarino, em Itabuna, enfrentou o preconceito e hoje ele é um dos eleitos do Bolshoi. Para um outro jovem, trabalhar de domingo a domingo foi a escolha para construir a própria academia.

Veja também a viúva que, aos 38 anos, educou os filhos trabalhando em dois empregos. E a aposentada, que voltou a estudar e agora recomeça em uma nova profissão. Até para viver em um paraíso depois da aposentadoria é preciso planejar. E dá certo. Nesta sexta-feira, dia 14, no “Globo Repórter”!.

Divulgação: Rede Globo

Menino de Itabuna (BA)

O mundo gira, rodopia, não para. O mundo de Pedro também não. Aos três anos ele percebeu que gostava de dançar.
“Ele, desde pequenininho, era muito ‘zoadento’, como a gente diz na Bahia, muito agitado, e ele vivia vendo minhas aulas de sapateado por conta do sapateado? Ele amava aquele sapato e pedia: ‘mãe, posso fazer sapateado’”, conta Annanda Pires, irmã de Pedro.
A mãe balançou. Era só o começo de uma longa estrada. E tinha uma pedra bem grande no meio desse caminho: o preconceito.
“Principalmente em cidade pequena, interior da Bahia, onde a gente mora, e as pessoas, entre aspas, muitas olharam com outros olhos, na verdade. Então eu fiquei com medo. É como muita gente fala: ‘o preconceito começou com você, porque você não queria deixar’. Não! O meu medo era de ver ele sofrer”, diz Luciana Pires, mãe de Pedro.
“Ficou aquela coisa deixa, não deixa e meu pai aquela coisa: ‘deixa! O menino não quer fazer?’”, lembra Annanda.
E Pedro fez sapateado, jazz, balé clássico. Passou por constrangimentos pelos quais ninguém deveria passar. Muito menos uma criança.
“Quando eu comecei a dançar, os pais dos meus amigos, os meus amigos não queriam mais brincar comigo e ficavam me xingando de nomes que não gosto nem de lembrar. Eu chegava em casa praticamente chorando. Eu conversava com a minha mãe, com meu pai. Se não fossem eles até hoje, acho que já teria desistido”, lembra Pedro Pires, estudante.
Apoio incondicional.
“Falei para ele que o que dependesse de mim, que ele podia contar comigo, e é como conta até hoje. Sem preconceito, sem nada”, diz Nildo Cordeiro Pires, pai do Pedro.
O sonho do menino virou um projeto de família. Economizar era essencial, para as despesas com festivais, apresentações e concursos, todos muito longe da casa dele, em Itabuna.
A mãe trancou o curso de psicologia. Ganhou um dinheiro extra, fazendo doces por encomenda. As viagens de fim de ano foram canceladas. Mas a decisão mais radical veio em 2011.
“Dei o meu melhor e consegui mesmo”, conta Pedro.
Pedro conquistou uma vaga na escola do Balé Bolshoi, um dos mais conceituados do mundo.
Na época, os pais de Pedro foram entrevistados pela TV Globo:
Globo Repórter: Pai se emociona ao ver o sucesso do filho?
Nildo Cordeiro Pires, pai do Pedro: Ah, emociona muito. É uma coisa que ele quis.
Globo Repórter: Difícil até falar…
Nildo Cordeiro Pires: Difícil.
O menino teria que se mudar para Joinville, Santa Catarina, a 2 mil quilômetros de distância de Itabuna. Como enfrentar essa despesa?
Luciana Pires, mãe de Pedro: A gente tinha uma casa que a gente teve que abrir mão dela também.
Globo Repórter: Vendeu a casa?
Nildo Cordeiro Pires, pai do Pedro: Vendemos. A prestação estava alta, que a gente tinha comprado financiado pela Caixa e a gente já estava há um tempo, vendeu. E voltamos a morar de aluguel. Mas eu vou te dizer: eu tô feliz mesmo assim, porque daqui um dia isso vai passar e a gente compra de novo e refaz de novo.
Pedro se mudou com a avó. E há quase três anos a família Pires paga dois aluguéis. Sustenta duas casas. A animação da família Pires é porque eles não se viam há três meses. É uma família super unida.
Globo Repórter: Você estava sentindo muita saudade da mãe?
Pedro Pires, estudante: Tava sentindo bastante, porque para mim um mês já é muito, imagina três.
“A distância é grande, e a saudade também é maior ainda”, diz Nildo Cordeiro Pires, pai do Pedro.
Seu Nildo é contador. É do trabalho dele que vem a maior parte do sustento da família. Está sempre dando duro no escritório. Mas hoje está fazendo a mala para uma visita surpresa ao filho, em Santa Catarina.
E foi emocionante o reencontro, na véspera de Pedro completar 16 anos. A família unida. O melhor presente que Pedro poderia ganhar. Para conseguir estudar na escola do Balé Bolshoi, em Joinville, Pedro teve que provar que tinha talento, mas principalmente, que estava determinado a não desistir do seu projeto de vida. Foi reprovado três vezes na prova de seleção. Na quarta tentativa concorreu com cerca de 500 candidatos e foi aprovado. Mas aí veio um novo desafio: para os padrões da escola ele era muito baixinho e muito gordinho.
Exames médicos mostraram que ele ainda estava em fase de crescimento, ficaria mais alto. Mas, para perder peso, Pedro teve que abrir mão de pratos que ele adorava.
“Acarajé, abará, saudade de comer muita comida baiana, feijoada, arroz carreteiro com carne”, diz Pedro Pires, aluno do Balé Bolshoi.
Com consultas periódicas à nutricionista, ele fez uma reeducação alimentar.
“Não dava certo, ele vinha, ele procurava, vamos tentar de outra forma. Ele foi muito determinado mesmo. Ele fez todo um planejamento dentro do que a escola propôs e seguiu perfeitamente”, conta Fernanda Couto Coelho, nutricionista.
No jantar, por exemplo, a avó, Sandra, prepara uma salada caprichada e uma proteína: peixe ou frango, sem gordura.
Globo Repórter: A senhora teve que aprender a fazer tudo isso.
Sandra Oliveira, avó de Pedro: Isso mesmo.
Globo Repórter: Só sabia fazer comida baiana.
Sandra Oliveira: E gordurosa!
Globo Repórter: Diz que a senhora também emagreceu?
Sandra Oliveira: Emagreci, foi.
Globo Repórter: A senhora come essa comida?
Sandra Oliveira: Como. Eu faço para mim e para ele.
“Tudo com carinho a gente leva em conta”, diz Pedro.
Pedro tempera com o fiozinho de azeite e vinagre.
Globo Repórter: E o sal?
Pedro Pires, aluno do Balé Bolshoi: Não coloco sal.
Globo Repórter: Por quê?
Pedro Pires: Porque o sal tem muito sódio e sódio para bailarino não é legal.
Globo Repórter: E nunca mais você pôde comer um acarajé?
Pedro Pires: Só uma vez por ano que eu posso comer acarajé. No final do ano é meu presente de Natal.
Globo Repórter: E todo esse sacrifício vale a pena?
Pedro Pires: Vale a pena, para o que eu gosto de fazer, para que eu amo fazer vale muito a pena.
A família Pires sabe que tudo isso faz parte de um grande investimento no futuro. Para frequentar o Bolshoi, o aluno tem que estar matriculado no Ensino Fundamental ou Médio. Ter boas notas, para não perder a bolsa de estudos. Pedro e os colegas não pagam nada pelos benefícios que recebem, e eles são muitos: almoço, transporte, uniformes, assistência médica, odontológica e as aulas diárias, puxadíssimas.
O professor russo conta que Pedro é um aluno muito esforçado.
“Na profissão de bailarino a qualidade maior é gostar da profissão e ser extremamente trabalhador”, diz Vladimir Sychev, professor de balé.
E o que falar da gratificação pessoal? O Pedro na escola do Bolshoi não é uma exceção. Trezentos meninos e meninas sonham como ele, querem passar a vida nos palcos.
“Eu quero tentar chegar até 50 anos dançando, mas depois disso eu acho que vou querer dar aulas, querer viajar, fazer cursos, mas acho que tudo no ramo da dança. Eu vou levar isso para minha vida inteira”, planeja Pedro Pires.