Estréia da novela Em Família, foi com audiência baixa e com pouca ação

Esqueça o ritmo frenético da estreia de “Avenida Brasil” e “Amor à Vida”. “Em Família” não teve garotinha sendo deixada no lixão ou bebê jogado numa caçamba de lixo. Pelo contrário, o primeiro capítulo da nova trama das nove da Globo, escrita por Manoel Carlos (e anunciada como última novela do autor), não trouxe nenhum acontecimento muito empolgante.

Sem nenhum figurão para apresentar logo de cara, “Em Família” apostou em novatos (caso de Julia e Fernando) e por vezes lembrou “Malhação”. Aliás, da novelinha dos finais de tarde saíram Leicam, Alice Wegmann e Guilherme Prates. Na segunda fase da trama, Alice vive a vilãzinha Shirley e Prates faz Felipe, irmão da protagonista (que caberá a Thiago Mendonça). Os intérpretes na primeira fase foram Giovanna Rispoli (olho nela!) e Vinni Mazzola, respectivamente. Num ritmo morno – e por vezes arrastado -, a trama destacou a apresentação da família de Helena e Laerte (a mesma, por sinal; eles são primos) e o ciúme que o garoto sente de Virgílio, que nutre uma paixão secreta pela amiga de infância.

Só serviu para o público já ter raiva do primeiro e torcer pelo segundo. Em tempo de redes sociais e vida cada vez mais conectada, a falta de agilidade pode ter causado um estranhamento. Tudo muito bonito, mas lento – quase um marasmo. Mas os conflitos familiares começaram provocativos. Ramiro (Oscar Magrini, mostrando o bumbum em rede nacional), pai de Helena, saiu debaixo do edredom pelado e se exibiu sem cerimônia para a cunhada.

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Já Fernando (Antônio Sabóia) ficou animadinho ao flagrar a sobrinha, Helena, pelada no corredor de casa. Uma coisa meio “Presença de Anita”, minissérie de Maneco. A moça ainda fez questão de divulgar o episódio para pais e tios. Leonardo Medeiros assumirá Fernando na terceira fase.
A intenção, pelo visto, foi evidenciar o perfil sombrio e obsessivo de Laerte (com ares de psicopata) e o sentimento puro e sincero de Virgílio. Helena já se mostrou voluntariosa, sem pinta para mocinha insossa. De mais “impactante”, a crueldade infantil: desde pequena, a invejosa Shirley adora provocar e humilhar Virgílio. Ainda menina, quase deixou a amiga Helena morrer afogada para ter o caminho livre para investir em Laerte. Fora isso, “Em Família” pouco revelou do estilo “cronista do cotidiano” de Maneco. De realismo, só o fantástico, num sonho em que Laerte voava com Helena sobre uma Fênix (cheio de efeitos visuais), a ave que renasce das cinzas, deixando Virgílio de escanteio – uma metáfora do amor dele por ela, que não morrerá apesar da tragédia. Na estreia, os dois fizeram um “pacto de sangue” (tudo bem que era uma época mais romântica, mas já pensei na mensagem em tempos de Aids e hepatites ao ver um chupando o sangue do outro). Maneco, devoto de Santa Rita de Cássia (sempre presente em suas tramas), apostou ainda em rituais católicos – marca registrada – e na “proteção” da Virgem Maria. Além do batismo da bebê Helena, bom frisar que houve um casório budista.

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Talvez, quando todo o enredo se concentrar no bairro carioca do Leblon, o autor deixe seu lado natural de contar histórias aflorar mais. De novo, uma saída do eixo Rio-São Paulo com imagens de Goiânia, Pirenópolis e Goiás (que virou a fictícia Esperança), ambas no estado homônimo. Bela fotografia! Na trilha sonora, MPB (Ana Carolina canta “Eu Sei que Vou te Amar” na abertura) e sertanejo darão o tom. A mudança de ares até lembrou o início de “Felicidade”, novela das seis que marcou a volta (bem-sucedida) de Maneco à Globo, em 1991, após uma passagem pela Band e pela extinta Manchete. A diferença é que, na ocasião, a cidade de Rochedo de Minas (MG) serviu de cenário. A diretora foi Denise Saraceni, que trouxe um ritmo mais interessante ao folhetim. Assim como Ricardo Waddington imprimiu outra dinâmica às tramas do autor que teve a missão de dirigir (“História de Amor”, “Por Amor”, “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”).
“Em Família” é dirigida por Leonardo Nogueira e é do núcleo de Jayme Monjardim (que acaba de tocar “Flor do Caribe”), com quem Maneco trabalhou em “Páginas da Vida” e “Viver a Vida”, além da minissérie “Maísa – Quando Fala o Coração”. O diretor já aposta num gênero mais contemplativo. Vamos ver se, quando chegar à terceira fase, a nova produção vai ganhar dinamismo. Como já fez em “Mulheres Apaixonadas”, Maneco volta a dedicar os minutos finais dos capítulos à histórias reais. Desta vez, situações familiares (inspiradas na vida de telespectadores) são dramatizadas por atores. A ideia é compartilhar emoção com os “Momentos em Família” – de primeira, não provocou empatia.
É na terceira fase que Helena, Laerte e Virgílio serão interpretados por Júlia Lemmertz, Gabriel Braga Nunes e Humberto Martins. Vivianne Pasmanter assumirá a vilania de Shirley. Pelo histórico da atriz, são aguardados bons embates com a protagonista. O elenco contará ainda com Giovanna Antonelli, Reynaldo Gianecchini, Helena Ranaldi, Tainá Müller, Angela Vieira, Bruno Gissoni, Bianca Rinaldi e Betty Goffman, entre outros.

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Por falar na terceira fase, algumas imprecisões já vem chamando atenção antes do elenco entrar em ação. Natália do Vale (Juliana Araripe nas duas fases iniciais), 60 anos, será mãe de Júlia Lemmertz, 50. A diferença de idade entre as duas é de apenas dez anos. Em tempo: Natália voltará a fazer par com Magrini, após “Salve Jorge”. Já Ana Beatriz Nogueira, como Selma (Camila Raffanti na 1ª e 2ª fases), fará a mãe de Gabriel Braga Nunes. Ela tem 46 anos. Ele 41.
Até lembra Ana Paula Arósio como mãe de Ariela Massoti, Anna Sophia Folch e Tammy Di Calafiori em “Ciranda de Pedra” (2008), sendo que as quatro pareciam irmãs. “Escolhas subjetivas e que não comprometem a obra”, declarou Maneco ao jornal Folha de São Paulo

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A audiência foi umas das pior de estréia

Em baixa – O clima morno – quase água com açúcar; pegada de novela das seis – do primeiro capítulo marcou apenas 31 pontos de média (pico de 36), segundo dados prévios do Ibope. Cada ponto equivale a 65 mil domicílios na Grande São Paulo. “Amor à Vida” e “Salve Jorge” registraram 35 pontos na estreia e “Avenida Brasil” deu 37. Mas é o que sempre digo: melhor estrear com baixos índices e ir conquistando o público aos poucos do que o contrário. E há um hiato natural após o término de uma trama – ainda mais com a repercussão do final de “Amor à Vida”, com direito a beijo gay. Os órfãos dos personagens que estavam no ar se mostram resistentes ao envolvimento com os novos.

No horário, Record e SBT registraram 6,1 e 4,7 pontos respectivamente. A Record não foi feliz na troca de horário de “Pecado Mortal” (21h15). No confronto com “Em Família”, a trama de Carlos Lombardi, que ia ao ar às 22h30, marcou 4,3 pontos e ficou em terceiro lugar.
Por enquanto, Félix (Mateus Solano) deu lugar à uma Fênix, que nos deixou com saudade da “bicha má” e cia (quem diria!). E olha que sou um entusiasta do estilo e das crônicas de Maneco!