Entrevista Glória Pires e Adriana Esteves que falam sobre vilãs em “Babilônia”

Com texto de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, a trama, grande aposta do canal em seu cinquentenário, terá como cenários o Leme (Rio), a comunidade do Morro da Babilônia e o luxo da sociedade carioca.

Por lá circulam o político corrupto interpretado por Marcos Palmeira, a batalhadora Regina (Camila Pitanga) –heroína da novela– e Vinícius (Thiago Fragoso), advogado rico e idealista, o príncipe encantado da vez.

Rivais e aliadas, Beatriz (Gloria) e Inês (Adriana) terão uma das relações mais intensas do folhetim, uma mistura de ódio e obsessão, em que uma vive à sombra da maldade da outra.

“Babilônia” também terá um casal de lésbicas que promete. As octogenárias Nathália Timberg e Fernanda Montenegro serão casadas e apaixonadas, amor apedrejado pela preconceituosa Consuelo, vivida por Arlete Salles.

Dennis Carvalho, diretor da novela, vai reviver a parceria de anos com Gilberto Braga, mestre na narrativa do universo dos milionários quatrocentões, ricos falidos e da sociedade decadente movida por inveja, vaidade e ambição.

É nesse “esgoto” de luxúria e perversidade que transitam as “ratas” Beatriz e Inês. E é sobre essas personagens que Gloria e Adriana falaram à Folha, por telefone. Elas também analisam as várias faces da vilania e o fascínio que o mal desperta na audiência.

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Gloria Pires e Adriana Esteves têm muito em comum. Começaram jovens na TV, logo viraram protagonistas e viveram muitas mocinhas, mas marcaram a dramaturgia com vilãs inesquecíveis.

A mesma ambição sem limites de Maria de Fátima (Gloria) em “Vale Tudo” vai mover a megera interpretada pela atriz em “Babilônia”.

Beatriz Amaral Rangel será uma viúva negra, uma devoradora de homens, que conhece e odeia Inês (Adriana) desde a infância. Por saber que a colega não vale nada, prefere mantê-la por perto e sob controle. Uma será o espelho da maldade da outra.

Como foi o convite para viver Beatriz?

Gloria Pires – Encontrei o Gilberto [Braga, autor] em um aniversário do Sílvio de Abreu [autor] e ele me pediu se poderia me reservar para uma novela. Topei na hora.

Sem saber que se tratava da grande vilã da novela?

[risos] Sim, sem saber. É o Gilberto, como não confiar em um convite dele?

Quais as suas primeiras impressões da personagem?

É uma mulher egoísta, autocentrada, controversa. Beatriz tem desvios de caráter, mas não acho ela boa ou má. Ela tem conflitos, está no comando e é refém. Essa é a riqueza do ser humano e isso o Gilberto sabe colocar muito bem em suas novelas.

Você já está defendendo a sua megera na novela?

[risos] Estou, mas ela é tridimensional. Algumas coisas dela você questiona e até entende. É uma mulher real.

Você gosta de viver vilãs?

Fiz poucas antagonistas. Mas adorei rever “Vale Tudo”. Quando soube que o canal Viva ia ser lançado, fiquei com medo. Pensei: “Envelheci, talvez não estivesse bem, vou me criticar”. Mas não foi assim. É uma nostalgia boa. Quanto às vilãs, sim, a minha personagem é incrível. E tem um guarda-roupa sensacional [risos].

Beatriz anda bem vestida?

Ah, sim. Troquei 20 vezes de roupa em uma das primeiras gravações [risos].

O público gosta mais de vilãs?

Não sei se gosta mais. As heroínas também são amadas. Mas as vilãs parecem agir mais, levantam questionamentos, talvez por isso que se destaquem.

O público gosta mais de vilãs reais ou de bruxas malvadas?

Acho que personagens que se distanciam da realidade não são tão sedutoras.

Como está sendo trabalhar com a Adriana Esteves?

Estou adorando. A Adriana é dedicada, intensa. Nossas personagens viverão uma relação de amor e ódio. Beatriz manipula Inês e ao mesmo tempo precisa dela. É uma felicidade. E felicidade é combustível, não é?

Você viveu uma das malvadas favoritas, a Maria de Fátima de “Vale Tudo”. Quais as suas vilãs prediletas nas novelas?

Odete Roitman [“Vale Tudo”], vivida por Beatriz Segall. Só ela poderia ter feito essa personagem tão sórdida e conflituosa. Também gosto muito da Yara Amaral [1936-88] em “Anos Dourados”. Era uma atriz preciosa.

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Quando Sandrinha explodiu um shopping em “Torre de Babel” (1998), Adriana Esteves e seu rosto angelical finalmente caíram nos braços da vilania na TV. Mas foi com Carminha, em “Avenida Brasil”, que a atriz parou o país.

Depois de uma pausa, Adriana volta aos domínios do mal como Inês Junqueira, cafetina da própria filha, Alice (Sophie Charlotte). Uma mulher recalcada que cresceu obcecada pela colega Beatriz (Gloria Pires).

Juntas, elas vão tocar o terror em “Babilônia”, atropelando quem estiver pelo caminho, principalmente a boa moça Regina (Camila Pitanga). Já dá para sentir pena dela, não é?

Folha – Você teve uma preocupação em viver uma vilã depois da intensa Carminha?

Adriana Esteves – Não. Minha preocupação foi tirar um tempo e me cuidar. Fazer novela é coisa de atleta [risos], oito meses de imersão. Mas não tem essas coisas de viver vilã de novo. E a Inês não é uma “vilãããã”. A Carminha também não [risos].

A Carminha jogava crianças no lixão, como não era vilã?

Tá, vai. [risos] Ela era ruinzinha. Estou defendendo as personagens. Assim, depois, com um afastamento, dá para ver a vilã. A Inês, por exemplo, é muito normal. É uma mulher que quer se dar bem.

A Inês é uma espécie de cafetina da filha?

Ela tem essa relação estranha com a filha, mas é justificável. Muitas pessoas vão pensar: sou capaz disso?

Sua personagem tem uma obsessão pela Beatriz?

Adoro estudar psicologia e tenho mergulhado fundo nessa relação obsessiva.

Fazer vilã é mais empolgante?

Ah, não sei. Fiz muito mais mocinhas. Carminha e Sandrinha são minhas vilãs mais conhecidas. Vim de uma linha de comédia e heroínas. Mas fazer mocinha é muito difícil. É duro ser vitimada ao extremo para depois buscar vingança de forma convincente. Você corre o risco de ficar maniqueísta.

Foi difícil se livrar da Carminha depois de tanto sucesso?

Nossa, que loucura foi “Avenida Brasil”. Que sorte fazer esse trabalho. Mas deixo as personagens no Projac [estúdios da Globo, no Rio] toda sexta, quando vou para casa cuidar das crianças e do Vladimir [Brichta, marido]. Segunda, eu volto para as gravações e as pego de volta [risos].

Como está sendo essa parceria com a Gloria Pires?

Sou fã dessa mulher. Já cheguei a cortar o cabelo como o dela em novelas [risos]. Cortei também aquela franjinha da Lídia Brondi em “Vale Tudo”. Ficou “buuuniiiitooo” [risos]. Mas Gloria é generosa, talentosa demais, já temos uma boa afinidade.

Carminha é a vilã favorita de muita gente. Quais as suas vilãs favoritas nas novelas?

Ah, a Maria de Fátima, da Glorinha. Ela era demais. E a Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino”. Fiz a Nazaré na fase jovem, mas ela nasceu para ser eternizada pela Renata Sorrah, que estava perfeita. Ela jogava gente da escada, meu Deus [risos]! Viva a Renata Sorrah!