Enquanto muitas novelas despencam ”Meu Pedacinho de Chão” cai na graça do público

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Meu Pedacinho de Chão é o maior aglomerado de citações literais ou implícitas da história da tevê brasileira. Começa por citar a si mesma, aquele Meu Padacinho de Chão que se estendeu por 185 longuíssimos capítulos, de 1971 a 1972, estreando o que viria a ser o horário cativo da novela das 6, e escrito pelo mesmo Benedito Ruy Barbosa que, num remake que ele diz não ser um remake, recorre desta vez à expertise de duas gerações da família (a filha Edilene e o neto Marcos assinam com ele a trama).
O enredo é meio conto de fadas, meio cordel, meio romance armorial, como se Ariano Suassuna fosse subitamente aparecer em cena trazendo pelas mãos Dom Quixote e Dulcineia. Tem ecos de chanchada e alvoroços de saltimbancos, o que justifica o talentoso casting de atrizes do Galpão (Inês Peixoto, Teuda Bara), a trupe jogralesca de Minas. A toada nordestina é temperada pelo eventual sotaque de caipira paulista. Total melting pot.
Na cenografia, as alusões explodem em fartura policromática que evoca, do início ao fim, o Tim Burton de Peixe Grande e A Fantástica Fábrica de Chocolate. O figurino de golas, perucas e looks à Maria Antonieta promove um revival enigmático que, de tão irreal, de tão fictício, provoca a nostalgia ambígua de um tempo jamais vivido. Desde o seriado Hoje é Dia de Maria, Luiz Fernando de Carvalho (agora, com Carlos Araújo) se esmera num faz de conta corajoso e inovador, de persongens que, propositalmente caricatos, ainda assim não deixam de ser ligeiramente espectrais.
Carvalho não tem à mão Johnny Depp ou Marion Cotillard, mas tem Irandhir Santos (o Zelão) e Bruna Linzmeyer (a Juliana) roubando a cena em meio a um elenco de notáveis. O horário das 6 agradece. A novela, quando criativa, quando irrequieta, ainda tem seu lugar.