Apple dá novo tom em futuro da música

Mais de uma década atrás, o falecido Steve Jobs fez uma de suas características manobras de distorção da realidade, pressionando executivos de gravadoras de música a vender músicas na então nascente loja digital iTunes da Apple por mero 0,99 dólar cada uma.
Agora, a mesa virou e é a Apple que está sendo forçada a um acordo que está longe de ser uma vitória garantida.
A companhia deve anunciar esta semana um acordo de 3,2 bilhões de dólares para comprar a Beats Electronics, empresa fabricante de fones de ouvido e que opera um serviço de transmissão de música online fundada pelo lendário produtor de música Jimmy Iovine e pelo rapper Dr. Dre, segundo três fontes familiarizadas com o planejamento da Apple.
O acordo virá depois que a Pandora Media e a Spotify já reclamaram a vanguarda da revolução de transmissão de música, enquanto a resposta da Apple — a iTunes Radio que existe há oito meses — enfrenta dificuldades.
“A Apple está cerca de dois anos atrasada, atrás da Spotify”, disse David Pakman, um investidor em música digital com a Venrock Capital e co-criador do Music Group da Apple. “Eles precisam de uma oferta de transmissão”.
Com os downloads de músicas digitais em queda, as gravadoras colocaram pressão sobre a Apple para que ela se estruture em transmissão, segundo duas das três fontes. As gravadoras esperam que a Apple possa tornar a Beats Music uma concorrente forte à Spotify e outros serviços de streaming de música, disseram as fontes.
Nos últimos meses, as grandes gravadoras têm ficado insatisfeitas com o desempenho da iTunes Radio, disse a fonte. As assinaturas de streaming são atualmente a fonte de receita que cresce mais rapidamente para a indústria fonográfica, mas a Apple não teve impacto.
As assinaturas tiveram um salto de 51 por cento em 2013 para 1,1 bilhão de dólares, de um total de 15 bilhões de dólares gastos com música, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica. Enquanto isso, os downloads caíram 2,1 por cento.
O gasto por usuário é maior com serviços de transmissão do que para downloads de músicas. Um consumidor bom gasta cerca de 25 a 35 dólares por ano em compras de músicas, mas um assinante gasta 9 dólares ou mais por mês – ou mais de 100 dólares ao ano, segundo uma fonte.
A Apple, a Beats e as gravadoras Warner Music Group e Sony Music Entertainment não quiseram se pronunciar sobre o assunto. Uma porta-voz da Universal Music Group não respondeu a pedidos por comentários.
Alguns analistas de Wall Street classificaram o plano de compra da Beats pela Apple de “intrigante”. Apesar do crescimento rápido da transmissão de música, ela ainda é uma pequena fatia do mercado geral de música. Se as gravadoras não concordarem a reduzir as taxas de royalties, então, como a Pandora e a Spotify, a Apple pode enfrentar dificuldades para tornar sua transmissão lucrativa. E a Beats está vários anos atrás da Pandora e Spotify, que têm mais de 99 milhões de usuários ativos combinadas.
Ainda assim, o fato de que as gravadoras estão apoiando a Apple marca um degelo no que tem sido às vezes uma relação abertamente conturbada, segundo fontes da indústria. O modelo “à la carte” que o iTunes lançou em 2001 reduziu as receitas das gravadoras, pois os consumidores não precisavam mais comprar álbuns inteiros.
Agora, a indústria da música acredita que serviços streaming são o caminho para o futuro, embora sua escalada não tenha sido suave. Fontes da indústria dizem que as negociações de licenciamento com companhias como Spotify e Pandora surgem a cada 12 a 15 meses e podem ser difíceis.
Uma fonte disse que as gravadoras gostam da Beats pois ela foi “criada dentro da indústria fonográfica”. A compra da Beats trará à Apple uma bem conectada equipe de executivos da indústria e produtos de alta margem.
Conseguir trazer Iovine à bordo dará à Apple uma enorme vantagem na mesa de negociação. Ele provavelmente deixará a gravadora Interscope e se juntará à Apple, segundo duas fontes.
Mas analistas afirmam que o preço da aquisição é “intrigante”. A Beats está vários anos atrás da Pandora e Spotify, que juntas têm 99 milhões de usuários ativos combinados.

(Agência Reuters)